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O Greenpeace Internacional divulgou recentemente uma nova edição do “Guide to greener eletronics”, que é um ranking de quanto as empresas de produtos eletrônicos – celulares, computadores, etc – são responsáveis em relação aos impactos de suas atividades ao meio ambiente.

Muitas vezes, quando digo que trabalho numa ONG, sou questionado sobre quais empresas têm boas práticas e quais não têm.  As pessoas sabem que não podem simplesmente confiar na propaganda das próprias empresas, e querem ter outros parâmetros além de preço e qualidade na hora de comprar.  Por isso acho importante esse tipo de ranking, mesmo que pareça meio bobo.  Premiar, com o consumo, as empresas que respeitam o meio ambiente fará com que as outras sigam o bom exemplo.

Assim que tiver um pouco mais de tempo quero ler com calma esse guia (é em inglês, e está aqui). A finlandesa Nokia aparece em primeiro lugar, o que não é nenhuma surpresa, mas sabemos que países como a Finlândia “exportam” a parte poluente de suas indústrias para o terceiro mundo, e não sei se o guia analisa essa questão.

Abaixo, copio a lista das empresas usando a tradução do blog do Ambiente Brasil:

7,45 Nokia – A maior nota atingida pois levou os competidores a eliminarem os tóxicos perigosos.

7,1 Samsung – Segundo lugar pelo seu compromisso em reduzir suas emissões absolutas.

6,5 Sony Ericsson – Subiu duas posições no ranking por seus produtos com melhor eficiência energética.

5,7 LG – Subiu duas posições no ranking, mas precisa eliminar químicos perigosos de todos os seus produtos.

5,5 Toshiba – Subiu duas posições no ranking com um ponto extra porque prometeu cortar os gases de efeito estufa.

5,5 Motorola – Subiu duas posições no ranking pelo uso de energia renovável.

5,3 Philips – Caiu da 4ª para a 7ª posição e precisa colocar em prática a sua prometida política de reciclagem responsável.

5,3 Sharp – Subiu da 9ª para a 7ª posição com seus produtos eficientes em energia.

4,9 Acer – Lançou 16 novos modelos de monitor que são quase livres de químicos perigosos e subiu da 11ª para a 9ª posição, mas ainda precisa trabalhar em seus cabos.

4,9 Panasonic- Subiu da 12ª para a 10ª posição pelos seus produtos eficientes em energia e livres de PVC, porém ainda continua com nota baixa na produção de resíduos eletrônicos.

4,7 Apple- Caiu uma posição sem mudança na pontuação, mas ganhou créditos pelo seu novo notebook “verde”.

4,5 Sony – Pulou do 5º lugar para o 12º por comprometer-se inadequadamente a eliminar químicos perigosos, cortar gases do efeito estufa e sua política de lixo eletrônico.

3,9 Dell- Permanece em 13º lugar pois não cumpriu o compromisso de eliminar os tóxicos perigosos.

3,5 HP – Não tem produtos disponíveis no mercado livres de substâncias tóxicas.

2,5 Microsoft – Perde um ponto pela política de reciclagem fraca, porém permanece em 15º lugar.

2,5 Lenovo- Desce dois lugares no ranking por não estabelecer um prazo para eliminar substâncias tóxicas de seus produtos.

2,4 Fujitsu- Penúltima posição por não ter produtos livres de químicos perigosos.

1 Nintendo- Última posição com uma pequena esperança de que fará consoles parcialmente livres de PVC.

Na faculdade aprendi que o texto tinha que ser objetivo, seco, simples. Sempre em terceira pessoa, com lead e sublead, abominando adjetivos, recursos estilísticos e o famigerado nariz-de-cera. No mercado, descobri que tudo isso era verdade, não porque exista qualquer tipo de verdade universal do jornalismo, mas porque a rotina jornalística assim exige.

Qual não foi minha surpresa ao ler o texto “Então é verdade, no Brasil é duro ser negro?”, publicado pela revista Época e assinado por Eliane Brum? Não uma surpresa, mas duas: uma agradável e outra bem amarga.

A surpresa amarga é óbvia. O texto fala sobre uma importante atriz de Moçambique, Lucrécia Paco, que veio apresentar uma peça aqui no Brasil e sofreu preconceito dentro do Shopping Paulista. Racismo. Sim, é verdade: no Brasil é duro ser negro.

Mas foi só passada a “vergonha” que a jornalista relata que sentiu, e que como leitor e brasileiro, eu também senti, que eu prestei atenção ao texto: sem lead, em primeira pessoa, e teoricamente quebrando todas as “regras” habituais do jornalismo. O que temos é um texto vivo, forte, e que faz o leitor perder a voz, como a redatora, no último parágrafo. Faz o leitor sentir, também ele, vergonha.

Ainda existe criatividade no texto jornalístico.

E por isso deixo aqui meus parabéns a Eliane Brum, e meu impotente “sinto muito” à Lucrécia Paco. E peço aos meus poucos leitores que corram ao site da Época e leiam a reportagem.

Chico Buarque fez hoje 65 anos. Abaixo, ele canta Sabiá, com o mestre Tom Jobim.

E pensar que esses dois foram vaiados quando essa música ganhou um festival…

Porque a queda da obrigatoriedade do diploma é ruim:

1. Vai acabar com aquela graninha extra que você tirava no mercado paralelo de MTb’s, assinando como jornalista responsável daquela revista sobre prótese dentária que você nunca leu.

2. Vai fazer com que o papel do jornal laboratório que você fez nas coxas na faculdade tenha mais peso que o papel do diploma com aquele autógrafo do reitor.

3. Vai permitir que o porteiro do seu condomínio, que você não sabe o nome mas chama de “Seu Zé”, possa interpretar jornalisticamente os fatos da vida dele, sem passar por um intermediário – você. (Oh, heresia!)

Mas nem tudo é tragédia, não rasguem os seus diplomas: eles ainda servem de garantia para uma cela especial em caso de prisão (e viva a democracia!).

Ok, peço desculpas pelo sarcasmo. É que essa choradeira de jornalistas sobre o fim da obrigatoriedade do diploma de jornalismo já está cansando. Tenho visto na internet gente dizendo que vai rasgar o diploma, que os quatro anos de faculdade não serviram para nada, que qualquer um poderá fazer jornalismo (como se isso fosse ruim), que quer o dinheiro da faculdade de volta, e por aí vai.

Eu respeito quem acredita que o diploma deveria ser obrigatório. Eu mesmo já pensei assim, depois acabei mudando de ideia após analisar alguns argumentos. O que me irrita é ver pessoas inteligentes colocando seus quatro anos de faculdade numa peça de papel.

Quem faz a faculdade é o aluno. Os quatro anos de graduação deveriam servir para estudar, para experimentar, para redigir, propor boas matérias – muitas das quais são inviáveis no mercado – para discutir ética, manipulação e, entre outras coisas, o diploma. E o diploma, em si, é só um detalhe. Se você aproveitou a faculdade, na hora de competir por uma vaga, com ou sem diploma, você vai poder se sobressair. Simples assim.

 O Brasil é o país do bacharel, já dizia Sérgio Buarque de Holanda. Aqui, vale mais um pedaço de papel do que quatro anos de estudo. João do Rio ironizou, no ótimo conto “O homem de cabeça de papelão”. “Bacharel é o princípio de tudo. Não estude. Pouco importa! Mas seja bacharel! Bacharel você tem tudo nas mãos. Ao lado de um político-chefe, sabendo lisonjear, é a ascensão”. Vamos lutar para que as coisas mudem por aqui.

Em tempo: Os grandes jornais e as emissoras de televisão louvaram a queda do diploma, argumentando que isso é bom para democracia. Ok, também acho. Agora, vamos parar de hipocrisia: se queremos meios democráticos, é preciso que essas empresas parem de barrar a criação de rádios comunitárias e de veículos jornalísticos locais.

LAERTE-21-04

Publicado originalmente no Manual do Minotauro, blog de tirinhas do Laerte.

Eu trocaria o “não torço para time nenhum” por “não sou apaixonado por carro como todo brasileiro”.

O que realmente me impressiona na figura é a leveza do personagem, livre de ideias pré-concebidas que a gente interpreta como “naturais”. Laerte em sua melhor forma.

A partir das 19 horas de hoje, estarei de férias. Talvez com isso eu escreva mais no blog. Talvez eu escreva menos. Quem sabe?

Você já deve ter reparado que existe um descompasso – imenso – entre o que pensa a população e o que os parlamentares fazem na Câmara ou no Senado.  Nunca esse descompasso foi tão grande e tão visível quanto o que acontece agora, quando o tema é Amazônia.

Trago dois exemplo, que acho que bastam.  No dia 13 de maio, uma quarta-feira, os atores Victor Fasano e Christiane Torlone apresentaram, no Senado, um abaixo-assinado que reuniu 1,2 milhão de assinaturas de brasileiros que repudiam a destruição da floresta amazônica e qualquer flexibilização da legislação ambiental.  No mesmo momento, votava-se na Câmara um projeto apelidado pelo Greenpeace de “Plano da Aceleração da Grilagem”, a Medida Provisória 458 – que foi aprovada e agora e espera sanção do presidente (que deve dar o ok final ainda esta semana).

(Escrevi uma matéria sobre isso na época)

No dia 28 de maio tivemos mais um exemplo, que parece piada, mas não é.  Criou-se a CPI da Amazônia.  “Para quê?”, a gente se pergunta.  Segundo eles, para “investigar o conflito referente à demarcação da reserva indígena Raposa Serra do Sol; os problemas envolvendo a soberania nacional nas áreas de fronteira, como tráfico internacional, terrorismo, guerrilhas e vigilância; o recrudescimento da aquisição de terras por parte de estrangeiros e o desmatamento da floresta”.  Tudo isso em 180 dias.  Ou seja, para nada.

Percorrer a lista de nomes dos titulares dessa CPI nos traz algumas surpresas.  Vejamos.  Jayme Campos (DEM-MT) tem áreas embargadas pelo Ibama por desmatamento ilegal e foi acusado de manter 15 trabalhadores em situação degradante em suas fazendas; Flexa Ribeiro (PSDB-PA) é autor do projeto que reduz para 50% a Reserva Legal na Amazônia; Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR) pediu a suspensão da criação de uma unidade de conservação e da Terra Indígena Raposa Serra do Sol; na fazenda de João Ribeiro (PR-TO), foram encontrados 38 trabalhadores em condição análoga a escravidão… e por aí vai.

Amigos e inimigos

Outro político que parece que encampou de vez o discurso anti-ambiental é o deputado Aldo Rebelo, que diz que “o setor ambientalista não passa de massa de manobra para interesses estrangeiros em barrar o progresso brasileiro”.  Claro.

No dia do meio ambiente (5 de junho), ONGs e movimentos sociais divulgaram o “Prêmio Amigos e Inimigos da Amazônia”, apontando os parlamentares que defendem mesmo a Amazônia e aqueles que promovem medidas contra a floresta.  (A lista pode ser acessada aqui). Vale lembrar que uma pesquisa recente do Instituto Datafolha mostrou que mais de 90% da população pretende votar em políticos que defendam desmatamento zero (ou menos desmatamento) e legislação ambiental mais forte.  Vamos ver: 2010 está aí.

A equipe de imprensa da Petrobras tomou uma atitude curiosa: decidiu publicar todas as perguntas que os jornalistas fizeram à assessoria da empresa em um blog. O que é curioso é que eles publicaram as perguntas antes que os próprios jornais publicassem as reportagens. Segundo a Petrobras, trata-se de uma política de transparência adotada pela direção da empresa.

Veja o blog e o twitter da Petrobras.
Veja reportagem da Folha sobre o assunto.

Acho que a questão não pode ser vista sem levar em conta dois fatores: o direito de resposta (ou o “outro lado”) e a emergência da internet.

No último dia 30 de abril, o Supremo Tribunal Federal revogou por completo a Lei de Imprensa, sob o argumento de que era uma lei da ditadura que atentava contra a liberdade de imprensa. A revogação era esperada, como era esperado também que se mantivesse algum mecanismo que regulamentasse o direito de resposta – o que não ocorreu.

Atualmente, os pedidos de direito de resposta devem ser julgados pela justiça comum, o que significa, na prática, que o ofendido pode ser obrigado a esperar anos até a conclusão do processo. Um tempo que ele não tem, e que é o suficiente para fazer o que está sendo chamado de “assassinato de reputações”.

O direito de resposta é importantíssimo para a sociedade e para o pluralismo nos jornais. A imprensa não pode querer ser “promotor, juiz e júri”, e condenar em suas páginas as pessoas sem que elas se defendam, sem provas concretas, brincando de judiciário. O “outro lado” é às vezes hipócrita: o jornalista passa um mês apurando as denúncias e um dia apurando a defesa. Escreve duas páginas de denúncias e um box pequenininho com “eles negam as acusações”.

É nesse vazio que entra a internet, como caminho óbvio para quem não tem espaço suficiente para se defender nas páginas dos jornais. Um exemplo recente foi o caso do ex-guerrilheiro que publicou uma carta na internet denunciando a Folha por distorção em sua entrevista. A carta gerou certa repercussão e motivou a Folha a conceder o pedido de resposta dele. (A carta pode ser vista aqui.)

No artigo “Jornalismo e internet podem conviver juntos“, eu disse que com a internet a sociedade cria possibilidades de vigiar a imprensa e torná-la mais transparente. Acho que esse exemplo mostra bem esse novo “watchdog”.

O caso “Blog da Petrobras-Imprensa” não é isolado. Lembro aqui que a Presidência da República também publica todas as falas do presidente, sem cortes, para evitar que algum jornalista mal intencionado publique as falas fora do contexto. Agora, nunca tinha visto a fonte publicar as respostas antes da matéria. Segundo o advogado consultado pela Folha, isso não é ruim, apenas deselegante. “É apenas uma deselegância com os jornais. Do ponto de vista da democracia, não é ruim, pois a ideia é que a pergunta vai ao ar, de maneira que qualquer um do povo toma conhecimento”.

Já disse, aqui neste blog (Jornalismo no banco dos réus ), que concordava com a obrigatoriedade do diploma de jornalismo.  Minha opinião tinha sido formada a partir dos argumentos das pessoas que são contrárias à obrigatoriedade, simplesmente porque a maioria desses argumentos é um tanto quanto estúpida.

O mais famoso desses argumentos diz o seguinte: “os países x, y e z – geralmente países desenvolvidos do Norte – não obrigam o jornalista a ter diploma.  Já os países 1, 2 e 3 – geralmente ditaduras do Oriente Médio – exigem o diploma.  Tirem suas próprias conclusões”.  Não é preciso pensar muito para entender a ingenuidade do argumento que, no final das contas, não quer dizer nada.

Outro, que aliás é o argumento da ação que corre no STF, diz que a obrigatoriedade do diploma é inconstitucional porque restringe a liberdade de expressão.  Ora, essa tese só faz sentido se você acreditar que a liberdade de expressão se resume a o que é publicado nos jornais.

Mas nesses dias, lendo mais sobre o assunto, me deparei com um argumento que balançou algumas convicções minhas.

Resumindo: quando dizemos que só jornalistas podem fazer jornalismo, estamos dizendo que o rapper MV Bill não poderia ter feito o documentário “Meninos do Tráfico”?  Estamos dizendo que Drauzio Varella não poderia ter feito “Estação Carandiru” (para mim, uma ótima reportagem de imersão)?  Ou “Meninos do Tráfico” e “Estação Carandiru” não são jornalismo?

Os desdobramentos desse argumento vão longe: uma comunidade precisa de um jornalista para ter voz e expressão em um meio de comunicação local?  Porque geralmente pensamos em jornalistas trabalhando nos grandes meios, mas se a legislação vale para todos os meios, restringir a publicação de textos jornalísticos a jornalistas vai afetar, sem dúvida nenhuma, pequenas publicações.

Será que a obrigatoriedade não travaria, ainda mais, a tão penosa luta pela democratização dos meios?

Recebi esses dias um e-mail com um vídeo que falava sobre anorexia e remetia a imagens de um comercial da Dove.  Esse e-mail me motivou a ir atrás dessa campanha, que só conhecia de ouvir falar, e, apesar de ser antiga (outubro de 2007), acho que justifica um post aqui sobre a responsabilidade que as empresas precisam ter quando fazem um comercial.

Trata-se da campanha internacional da Dove de retratar as mulheres como elas realmente são, e não como a indústria da beleza geralmente as retrata.  Os vídeos são impecáveis, belos visualmente, e fortes: Na peça abaixo, a mensagem “Talk to your daughter before the beauty industry does” (Converse com sua filha antes que a indústria da beleza o faça) é certeira.

 

 

Curiosamente, a propaganda era tão boa que gerou algumas reações contrárias – não em relação à peça publicitária, mas às atitudes da empresa que fabrica o Dove, a Unilever.

A primeira constatação era a de que a Unilever trabalhava com dois pesos e duas medidas.  Porque enquanto a empresa chama a atenção para o absurdo da indústria da beleza, ela faz exatamente o que critica com outro produto, o desodorante Axe.  Nas campanhas da Axe, as mulheres são meros objetos sexuais atraídas para o homem que utiliza o produto.

A Unilever também foi alvo de uma forte campanha da organização ambientalista Greenpeace, que numa sátira da propaganda da Dove questiona a destruição causada pelo óleo da palma: esse produto é cultivado na Indonésia, e a Unilever é um dos principais compradores, justamente para fazer o sabonete Dove.

 

 

O mais interessante é que, em apenas duas semanas de campanha do Greenpeace, a Unilever recebeu milhares de e-mails de seus consumidores, e acabou concordando com uma moratória do desmatamento na Indonésia para a produção do óleo de palma.  Ou seja, depois da pressão da sociedade, a empresa tomou uma postura ambientalmente correta.

Acho que temos um bom exemplo de como deve ser a relação do consumidor e a responsabilidade da empresa com seus consumidores e com o meio ambiente.  A Unilever produziu uma ótima campanha, alertando seus consumidores da monstruosa máquina da indústria da beleza, depois ela é pressionada pela sociedade e por uma organização ambientalista, e acaba revendo seus pontos na questão ambiental.

Os consumidores, quando agem de forma consciente e em conjunto, têm forças para mudar uma postura ruim de uma empresa.  Vamos pressionar para que a Unilever abandone, também, os comerciais de mau gosto da Axe.  Mais importante, devemos pressionar todas as empresas de atuações midiáticas duvidosas para que nos respeitem.

Uma pesquisa recente mostrou que 65% dos jornalistas norte-americanos acreditam que a internet está prejudicando a prática do jornalismo.  Essa pesquisa foi realizada com 45 destacados jornalistas americanos, e as principais alegações são de que a internet prejudica a estrutura financeira da produção de notícias e de que a internet está mudando o hábito dos leitores de jornais.

Do lado dos blogueiros, principais porta-vozes do mundo digital, o problema não é a internet, mas a imprensa.  Os jornais são ultrapassados, são dinossauros em extinção no mundo cada vez mais veloz da internet.  As geniais tiras do cartunista André Dahmer, que ilustram este post, exemplificam a ideia: “Ainda há quem precise de jornal impresso.  Mendigos, churrasqueiros e cachorros de apartamento, por exemplo”, explica o editor-dinossauro.

O objetivo deste texto é refutar esses dois argumentos, o de que a internet prejudica a prática do jornalismo e de que o jornalismo – ao menos o impresso – está a beira da extinção.

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Só conheço um tipo de jornalismo que está sendo prejudicado pela internet: o mau jornalismo.  Antes da internet, a imprensa era – e continua sendo, mas não tanto – uma caixa preta, pouco acessível ao público.  A internet potencializou a participação dos leitores.  Mais do que isso, estamos vendo, talvez, um “quinto poder”: se a imprensa tem como objetivo vigiar o poder, a sociedade vem desenvolvendo formas cada vez mais eficazes de vigiar a imprensa.  O hábito do leitor de fato mudou: basta o jornal escorregar um pouquinho, e uma avalanche de críticas saem na internet.  Exemplos são abundantes em blogs e sites como o Observatório da Imprensa e o Comunique-se.

Dizer que a internet prejudica o modelo de negócios do jornalismo me parece um argumento preguiçoso.  Ah, se a internet desaparecesse e tudo continuasse como era antes!  É mais fácil lamentar do que buscar novas formas de negócios.  Será que todos os consumidores de jornais simplesmente desapareceram da face da Terra?  Acho mais provável que a imprensa não esteja falando, de fato, com esses consumidores.

Não estou dizendo que criar novas formas de negócio para os jornais seja uma tarefa fácil.  Com certeza não é.  Mas é assim que funciona o mundo, não?  Quando nos deparamos com um problema, vamos atrás de projetos que possam resolvê-lo.

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E com isso chegamos à segunda questão.  O jornalismo impresso está à beira da extinção? Pode até ser possível, caso os administradores de jornais não consigam criar um novo modelo de negócios para os jornais.  Mas isso seria uma tragédia para a qualidade de nosso jornalismo, porque os blogs, ao menos da forma como se configuram hoje, não podem assumir o lugar que os jornais deixariam.

Não estou desdenhando o jornalismo cidadão ou os blogs não-jornalísticos.  Mas dois pontos se mostram determinantes.  Primeiro, apesar da internet, são os grandes jornais que fazem a principal cobertura da política do país.  Essa cobertura é necessária em qualquer democracia, e eu não consigo imaginar os blogs enviando correspondentes para Brasília ou para o exterior, por exemplo.

São jornalistas que podem não saber usar o twitter, mas que têm experiência para lidar com o mundo da política sem serem dobrados a cada pergunta que fizerem por um político maroto.  Além disso, nós (consumidores de notícias) precisamos de boas histórias, de matérias apuradas, de investigação.  Nesse ponto, é o jornalismo praticado na internet que beira à extinção: a maioria dos portais sequer tem redação própria, e se limita a replicar o material da grande imprensa.

Segundo, não custa perguntar, novamente: será que todo mundo vai querer trocar o papel pela tela como fonte de informação?  Será que ninguém vai querer ler notícias enquanto toma o café da manhã?  Eu não acredito que o jornal-papel irá desaparecer.  Acho sim que a imprensa deve passar por algumas mudanças profundas.  Acho que os jornais impressos tendem a deixar a cobertura “quente”, o que acontece minuto à minuto, para a internet, e propiciar aos leitores material mais contextualizado, mais analítico.  Quem sabe dessa forma os jornais não recuperem a qualidade e a credibilidade com o público.

Em tempo: Quando nos referimos à crise dos jornais impressos, estamos nos referindo a uma crise aguda que acontece principalmente nos Estados Unidos.  Aqui no Brasil, os principais veículos impressos estão tendo lucro, exceto alguns que infelizmente foram muito mal administrados.  Especialistas acreditam que esse lucro é sustentado por pessoas que antes eram pobres e agora passaram para a classe média, e que portanto passaram a consumir jornal, e que se a crise de jornais for sistêmica, ou for fundamentalmente relacionada à internet, ela vai acabar chegando por aqui.

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