A idéia de escrever sobre mercado de trabalho para jornalistas partiu de discussões da lista do Jornalistas da Web, e o tema foi escolhido para a segunda edição da Ciranda de Textos, da qual este texto está participando. Minha motivação não poderia ser mais óbvia: recém-formado e sem experiência, sinto a pressão que esse mercado gera nos profissionais, tanto os empregados quanto os que procuram trabalho.
No meu caso, essa pressão se manifesta numa dificuldade imensa de não apenas ingressar no mercado de trabalho, mas de concorrer a vagas que me permitam esse ingresso. Enquanto o mercado em Bauru, onde me formei, era bastante restrito e com poucas possibilidades de estagiar, aqui em São Paulo as oportunidades de estágio são muitas. Assim, profissionais recém-formados aqui, mesmo que em universidades com menor prestígio que a Unesp, concluem o curso com algum grau de experiência.
As empresas se aproveitam desse fato para contratar profissionais experientes pagando preços de estagiários. Não é difícil encontrar, nos classificados, anúncios procurando estudantes do terceiro ano com dois anos de experiência. Dessa maneira, é fácil compreender porque a “culpa” pelo mercado saturado e pelos baixos salários costuma ser atribuída aos estagiários.
Não acredito que o estágio seja tão fundamental para a formação jornalística, como a residência é para os estudantes de medicina, apesar de ser interessante por possibilitar vivência no mercado. Acontece que o estágio não está sendo usado para aprimorar a formação: para os estudantes, é o meio mais fácil de ingressar no mercado, e para os contratantes, é uma maneira de conseguir um serviço pagando menos.
Claro que não devemos exagerar, pois existe muita empresa responsável e alunos interessados. Mas podemos culpar os estudantes por quererem estagiar ou os profissionais que recebem salários baixos pela redução do preço da oferta de trabalho? Isso equivaleria a culpar o desempregado pelo desemprego, quando na verdade ele é um resultado, uma vítima do processo.
Estudantes e recém-formados precisam se sujeitar a baixos salários. Como vivemos no “país do bacharelado”, o diploma, na nossa profissão, em peso cada vez menor para os empregadores, fazendo com que a única alternativa seja aceitar baixa remuneração em nome da experiência”.
A enorme expansão dos cursos superiores em jornalismo também é apontada como responsável pelo atual momento de saturação do mercado em jornalismo. É verdade que esses cursos estão em alta, assim como outras áreas de comunicação social, principalmente publicidade e marketing. Mas, em oposição, o mercado também se expande. Claro que digo isso sem me basear num estudo empírico, mas a sensação que temos é que cada vez mais empresas se preocupam com sua imagem na imprensa. Aproveitando a estabilidade econômica, surgem vagas em assessoria de imprensa, revistas especializadas, e o jornalismo na internet cresce cada vez mais. Será que não tem espaço para todos?
Teria, se não tivesse tanta gente de outras áreas atuando em comunicação. Conheço casos de pessoas formadas, por exemplo em administração, que acabam sendo transferidas para o setor de cominicação e, sem perceber, estão fazendo trabalho de um assessor de imprensa. Além disso, o argumento de mercado saturado não faz muito sentido se pensarmos que, não muito tempo atrás, não era necessário nenhum curso para exercer a profissão, e muitos jornalistas acreditam que o diploma é irrelevante.
Então temos um paradoxo: estudantes de comunicação e recém-formados sem experiência são deixados de lado, enquanto pessoas de outras áreas exercem a profissão sem o diploma. E empresas e jornalistas avançam na batalha contra a necessiadade do diploma.
Acredito que a chave para o atual problema está na falta de regulamentação da profissão. Regulamentação que permita algum controle sobre os salários, impedindo exploração de estagiários, controlando condições de trabalho. Regulamentar não significa censurar: ninguém aqui é a favor do controle do pensamento, mas acho justo lutarmos pelo controle das condições trabalhistas na profissão.
[...] Pós-texto “Então temos um paradoxo: estudantes de comunicação e recém-formados sem experiência são deixados de lado, enquanto pessoas de outras áreas exercem a profissão sem o diploma. E empresas e jornalistas avançam na batalha contra a necessiadade do diploma.” Bruno Calixto faz uma reflexão sobre as contradições do cenário profissional jornalístico brasileiro, analisando o procedimento das empresas na contratação de estagiários e como a falta de regulamentação da profissão está frustrando cada vez mais recém-formados, estudantes e profissionais. Boa leitura. [...]
Parabéns Planta.
Resumiu perfeitamente a situação pela qual estamos passando e propôs alternativas viáveis.
[...] 13, 2008 por brunocalixto Quero retomar a discussão iniciada no texto “Mercado de trabalho…” por causa de uma nova lei acrescentada nesta última terça-feira (11) à Consolidação das [...]
[...] na lista de discussão do Jornalistas da Web, e você pode ver o que já foi publicado sobre isso aqui e [...]
[...] é o carro“, que recebeu sozinho 988 acessos. Também merecem destaques os artigos “Mercado de trabalho, por quem pretende ingressar nele“, com 519 acessos, e “Pérolas do Enem: a arte de rir da própria ignorância“, [...]