Jornalismo é uma atividade de mediação. Só isso já bastava para existir interação máxima. Infelizmente, não é assim que funciona
Uma das maiores dificuldades que tenho no meu trabalho não diz respeito as rotinas jornalísticas, ao acesso de fontes ou a redação do texto. Pode parecer besteira, mas administrar a conta de e-mails do site, onde chegam cerca de 100 mensagens por dia (a esmagadora maioria de spams), é um grande desafio. Assim, quero aproveitar que o tema da terceira rodada da Ciranda de Textos é justamente “Jornalismo e Interatividade” para fazer uma breve reflexão sobre como interagir com nossos leitores.
Existem muitas formas de interagir, e eu tenho certeza que outros blogueiros vão escrever sobre elas na Ciranda. Mas aqui, eu quero me basear no princípio mais básico da interação, que podemos encontrar em qualquer meio ou veículo de comunicação, a do jornalista com o seu leitor.
Falo de meu próprio exemplo porque, em muitos casos, sinto uma dificuldade grande de simplesmente responder ao leitor. É política do site onde trabalho responder todos os e-mails, e a maioria é simples: pessoas enviando currículos, estudantes pedindo para usar o material do site etc. A questão fica complicada quando o leitor, exercendo um direito dele, quer dialogar com a matéria publicada. “A sua matéria diz X, mas eu vivencio Y, e penso Z”. E agora? Você debate com o leitor, ou simplesmente escreve uma resposta padrão do tipo “agradecemos sua opinião”?
Acredito que a deficiência começa na faculdade (ou nas redações já estruturadas). Treinamos os jornalistas para encarar as fontes, divulgar a notícia, mas não para enfrentar críticas ou manter um diálogo constante com os leitores. O leitor só interessa na condição de consumidor.
A rotina jornalística, tal qual aprendemos na escola, não é circular. Funciona assim: a pauta é sugerida interna ou externamente, o jornalista busca as fontes e redige o texto. E só. As críticas dos leitores chegam aos jornalistas, mas é difícil dar continuidade, como um diálogo. E nem tem como o jornalista dialogar, afinal de contas terminando uma matéria, ele já está com outra pauta.
Essa rotina reforça a aparência de neutralidade. Como se o repórter apenas fosse intermediário de um fato, e não um construtor do texto final.
É interessante ver como a internet pode quebrar esse modelo. Quebrar não seria o termo certo, talvez consertar: as possibilidades de interação são potencializadas. O esquema, antes linear (começo, meio e fim), passa a ser circular. A crítica ou opinião do leitor se torna combustível no processo, alimentando não apenas pautas mas o próprio debate.
Isso em teoria, claro. Porque na prática, tudo continua como antes, exceto com o fato que alguns jornais colocam espaço para comentários moderados, e deixam a discussão seguir sem muita preocupação. Engraçado, isso: não me lembro de nenhuma matéria em que o próprio jornalista que escreveu o texto participa do debate na área de comentários (não estou dizendo que não existe, apenas que não vi, o que não prova muita coisa, mas reforça o fato que se a interatividade fosse mesmo importante para nós, jornalistas, ela estaria mais visível).
Pois é justamente essa a impressão que tenho: não existe interatividade suficiente com o leitor nem mesmo nos portais da internet e nos blogs jornalísticos. Nós não estamos preparados para ela, não temos tempo para isso e não sabemos lidar direito com a repercussão do nosso próprio texto.
Olá, Bruno. Belo texto, muito bem redigido. Concordo contigo em diversos aspectos. Jornalista não é preparado para o diálogo, encara seu leitor como mero consumidor, ou menos que isso. Mas lidar comentários ao próprio trabalho, especialmente críticas, não deve ser fácil para qualquer profissional. Os jornalistas estão sendo os primeiros a experimentarem isso com seu público.
Credito um pouco essa falta de interação entre jornalista e seu pública à falta de recursos mais dinâmicos, mais fáceis de serem manipulados pelos leitores, para interagir mais fluentemente.
Tentei falar um pouco deste aspecto da interação, as plataformas disponíveis, bem como a interação com a informação já pronto e separo jornalistas de comunicadores, na minha participação na 3ª Ciranda.
e-braços
Interação, pelo que pesquisei, diz respeito mais à comunicação humano-máquina e não humano-humano mediada máquina. A gente toma muita coisa pronta, pesquisa pouco, pra começar. Prefiro considerar tudo comunicação mesmo.
Sobre responder aos leitores, corre-se o risco de não se fazer mais nada também. Há gente doente, que quer alugar a pessoa. Gente sem um foco na conversa, que não sabe o que quer. Sem contar os malucos, os que querem promover produtos, aparecer, se aproveitar de alguma forma. “Interagir” teria de levar em conta tudo isso. O cara passaria o dia entrando em papo-mosca e deixando de fazer coisas mais importantes?
Olá
D. Garcia, obrigado pelo elogio. Concordo que são poucos os profissionais dispostos a encarar críticas, mas vivemos em tempos que a presença midiática é muito forte, e portanto penso que os jornalistas precisam estar na vanguarda desse tipo de mudança, quem sabe a caminho de criar uma ética do consenso (se não me engano o filósofo Habermmas trabalha com isso), ou mesmo uma democracia mais verdadeira.
Rogério, como eu disse, a esmagadora maioria de respostas que temos é de spams, releases ou pessoas se promovendo, além de currículos. A idéia seria dialogar com quem tem coisas importantes a dizer. Mas você tem razão, é quase impossível conciliar isso com a rotina jornalística, com a apuração, que é o que mais interessa.
Quanto ao conceito de interação, eu realmente não pesquisei, mas dei uma olhada no meu mini-michaelis, que aceita o seguinte significado: “sf (inter+ação) 1 Ação recíproca de dois ou mais corpos uns nos outros”. Mas realmente é melhor considerar como “comunicação” mesmo.
Abraços