Sei que Isabela Nardoni, 5, foi vítima de um crime bárbaro, desses que chocam a sociedade. Entendo que a população queira ver justiça (impunidade é um mal neste país), e entendo que o caso traga audiência e, portanto, lucro para os veículos de comunicação. Mas essa história já foi longe demais.
Já são duas semanas de uma exposição absoluta do caso na mídia e imprensa em geral. Algumas notícias fazem sentido, a maioria não: de que me vale saber que o vizinho escutou algum barulho, ou que o garçom que serviu a irmã do principal suspeito na data não ouviu ela dizer nada?
As crianças, amiguinhas de Isabela e que provavelmente nem entendem direito o que está acontecendo, com certeza têm muito a dizer sobre o caso para serem tão assediadas pela imprensa.
Ontem cheguei a ver uma matéria absurda, dizendo que o assédio da imprensa estava alterando a vida dos habitantes da vizinhança do local o crime. Ora, e não era justamente isso o que o jornalista que deu essa matéria estava fazendo? Sexta-feira mais de 300 pessoas esperavam a saída dos suspeitos da delegacia para insultá-los. Talvez fizessem justiça com as próprias mãos se a polícia não estivesse lá. A exposição midiática ao caso já começa a incitar a população a atitudes nem um pouco civilizadas.
Se você está acompanhando o caso com interesse, gostaria de pedir um segundo de reflexão. Pergunte-se: por que?
O caso é uma tragédia particular. Não diz respeito à parcela nenhuma da população. Não alterará os rumos da política do país, não terá influência na vida de ninguém. Para quem procura aventura policial, não é mais interessante que um filme de Holywood ou um episódio de CSI.
Essa exposição do caso na mídia é, no entanto, extremamente prejudicial a vida pública do país. O mundo não parou. Os problemas ainda existem, os políticos continuam trabalhando em leis muitas vezes questionáveis, e que sequer aparecem na mídia. Isabela toma espaço na imprensa, espaço que poderia estar sendo utilizado de forma muito mais criteriosa. Depois reclamam que tal lei foi aprovada sem que ninguém ficasse sabendo.
Uso uma metáfora que um professor me disse, explicando uma teoria da comunicação: quando todas as luzes se focam num único local, os outros locais ficam escuros. Mas as coisas continuam acontecendo no escuro.
Por isso, meu apelo: esqueçam Isabela Nardoni. Deixem ela descansar em paz. Não sofram no lugar dos familiares. E deixem a polícia trabalhar.
Concordo plenamente. Não li uma linha sequer dematéria sobre o assunto, e mesmo assim sei mais coisas do que gostaria só por manchetes e chamadas na TV.