Um simpático e-mail que recebi na redação do site hoje me motivou a escrever esse texto, já que faz um bom tempo que eu não atualizo o blog. A mensagem era uma das muitas que chegam na redação com a questão da tal da “internacionalização da Amazônia”. Digo que me motivou porque, diferente da maioria dos e-mails de pessoas realmente preocupadas em saber o que se passa na região, partiu para a esculhambação xenófoba:
“Nós, brasileiros, sabemos do trabalho de vcs, ongs financiada por governos principalmentes da europa, vcs não estão atras de salvar indios coisa nenhuma bando de vagabundos”
“Vocês estão atras do ouro e dos minério da Amazônia e me da arrepio de saber que existe algum brasileiro dano entrada pra essse estrangeiros vagabundos”
“nada de ajuda pra vcs, dem um fora ratos estrangeiros”
Como disse, bem simpático.
Desde que os jornais The New York Times e The Independent publicaram artigos favoráveis à criação de uma Amazônia internacional, uma avalanche de informações contraditórias e imprecisas vêem fazendo estrago na mídia. Antigos e-mails que circulavam pela internet reapareceram, como o mapa do Brasil sem a Amazônia num livro escolar norte-americano e o vídeo de uma empresa de biotecnologia vendendo a Amazônia. Ambos falsos. Além disso, virou moda criminalizar as ongs, que “querem vender o território e explorar os recursos naturais”.
Sempre que discuto sobre esse assunto, eu levanto duas questões. Primeiro: o que nos faz acreditar que um organismo internacional qualquer possa resolver o problema da Amazônia? Basicamente, não existe nenhuma experiência relevante do tipo no mundo. Sei que uma área da floresta amazônica da Guiana está sob concessão da Comunidade Britânica, mas basta ver o tamanho da reserva, perto da nossa floresta, para ver que o exemplo não serve. Isso ainda é reflexo de um pensamento eurocêntrico, que dá mais relevância a um editorial do The Independent do que a quem estuda Amazônia a vida toda aqui no Brasil.
O segundo ponto é em relação às ONGs. Por que os que reclamam das ONGs não falam nada sobre as tantas mineradoras multinacionais do Pará, do Amapá, Amazonas, de tantas empresas que destróem o meio ambiente? Criminalizar as ONGs é um risco: o de fazer o jogo das mesmas pessoas que mataram Doroty Stang ou Chico Mendes, nas palavras do ministro Minc. Isso não significa que não exista “eco-picaretagem”, como disse o ministro. O problema é acreditar que o único objetivo de uma ONG é travar o desenvolvimento ou vender a Amazônia para a Europa.
Quem quiser se aprofundar um pouquinho mais, recomendo que leia o artigo “A Amazônia tem dono?”, do jornalista Danilo Pretti Di Giorgi ou o “Os inimigos da Amazônia estão aqui, e são brasileiros”, do ex-secretário do meio ambiente do Amazonas Virgílio Viana.