Uma pesquisa recente mostrou que 65% dos jornalistas norte-americanos acreditam que a internet está prejudicando a prática do jornalismo. Essa pesquisa foi realizada com 45 destacados jornalistas americanos, e as principais alegações são de que a internet prejudica a estrutura financeira da produção de notícias e de que a internet está mudando o hábito dos leitores de jornais.
Do lado dos blogueiros, principais porta-vozes do mundo digital, o problema não é a internet, mas a imprensa. Os jornais são ultrapassados, são dinossauros em extinção no mundo cada vez mais veloz da internet. As geniais tiras do cartunista André Dahmer, que ilustram este post, exemplificam a ideia: “Ainda há quem precise de jornal impresso. Mendigos, churrasqueiros e cachorros de apartamento, por exemplo”, explica o editor-dinossauro.
O objetivo deste texto é refutar esses dois argumentos, o de que a internet prejudica a prática do jornalismo e de que o jornalismo – ao menos o impresso – está a beira da extinção.

Só conheço um tipo de jornalismo que está sendo prejudicado pela internet: o mau jornalismo. Antes da internet, a imprensa era – e continua sendo, mas não tanto – uma caixa preta, pouco acessível ao público. A internet potencializou a participação dos leitores. Mais do que isso, estamos vendo, talvez, um “quinto poder”: se a imprensa tem como objetivo vigiar o poder, a sociedade vem desenvolvendo formas cada vez mais eficazes de vigiar a imprensa. O hábito do leitor de fato mudou: basta o jornal escorregar um pouquinho, e uma avalanche de críticas saem na internet. Exemplos são abundantes em blogs e sites como o Observatório da Imprensa e o Comunique-se.
Dizer que a internet prejudica o modelo de negócios do jornalismo me parece um argumento preguiçoso. Ah, se a internet desaparecesse e tudo continuasse como era antes! É mais fácil lamentar do que buscar novas formas de negócios. Será que todos os consumidores de jornais simplesmente desapareceram da face da Terra? Acho mais provável que a imprensa não esteja falando, de fato, com esses consumidores.
Não estou dizendo que criar novas formas de negócio para os jornais seja uma tarefa fácil. Com certeza não é. Mas é assim que funciona o mundo, não? Quando nos deparamos com um problema, vamos atrás de projetos que possam resolvê-lo.

E com isso chegamos à segunda questão. O jornalismo impresso está à beira da extinção? Pode até ser possível, caso os administradores de jornais não consigam criar um novo modelo de negócios para os jornais. Mas isso seria uma tragédia para a qualidade de nosso jornalismo, porque os blogs, ao menos da forma como se configuram hoje, não podem assumir o lugar que os jornais deixariam.
Não estou desdenhando o jornalismo cidadão ou os blogs não-jornalísticos. Mas dois pontos se mostram determinantes. Primeiro, apesar da internet, são os grandes jornais que fazem a principal cobertura da política do país. Essa cobertura é necessária em qualquer democracia, e eu não consigo imaginar os blogs enviando correspondentes para Brasília ou para o exterior, por exemplo.
São jornalistas que podem não saber usar o twitter, mas que têm experiência para lidar com o mundo da política sem serem dobrados a cada pergunta que fizerem por um político maroto. Além disso, nós (consumidores de notícias) precisamos de boas histórias, de matérias apuradas, de investigação. Nesse ponto, é o jornalismo praticado na internet que beira à extinção: a maioria dos portais sequer tem redação própria, e se limita a replicar o material da grande imprensa.
Segundo, não custa perguntar, novamente: será que todo mundo vai querer trocar o papel pela tela como fonte de informação? Será que ninguém vai querer ler notícias enquanto toma o café da manhã? Eu não acredito que o jornal-papel irá desaparecer. Acho sim que a imprensa deve passar por algumas mudanças profundas. Acho que os jornais impressos tendem a deixar a cobertura “quente”, o que acontece minuto à minuto, para a internet, e propiciar aos leitores material mais contextualizado, mais analítico. Quem sabe dessa forma os jornais não recuperem a qualidade e a credibilidade com o público.
Em tempo: Quando nos referimos à crise dos jornais impressos, estamos nos referindo a uma crise aguda que acontece principalmente nos Estados Unidos. Aqui no Brasil, os principais veículos impressos estão tendo lucro, exceto alguns que infelizmente foram muito mal administrados. Especialistas acreditam que esse lucro é sustentado por pessoas que antes eram pobres e agora passaram para a classe média, e que portanto passaram a consumir jornal, e que se a crise de jornais for sistêmica, ou for fundamentalmente relacionada à internet, ela vai acabar chegando por aqui.
E ae grande herbáceo! (piada interna)
Enfim, essa questão de extinção ou não do jornal impresso vem da nossa época do GPCON (grupo de pesquisa em comunicação online) em 2005. Na época, essa ideia era vaga, mas pelo que estive presenciando na minha pequena passagem pela redação do Estadão é que a coisa não está lá muito boa. Desde de outubro, eles não contratam nenhum jornalista para assumir uma vaga fixa e estão no meio de uma auditoria para, provavelmente, cortar despesas. Então, se um jornal desse porte passa por um momento levemente de crise, imagine outros menores e sem tamanha importância. O Diário do Grande ABC também cada dia perde mais seus assinantes e já se preocupam com a geração de conhecimento gratuito e livre da web.
Em suma, os jornais provavelmente não acabaram de uma hora para outra, mas perderão a cada dia a “big star” que eles possuiam no decorrer do século XX. Será uma piora na qualidade do jornalismo? Acredito que não, pois há jornalismo ruim no JT (vide o caso do jornalista que “requentou” uma entrevista com um artista sem nunca ter ido ao local do evento) quanto em site na internet feito por jornalistas-cidadãos (há várias denúncias que existe no Digg grupos que controlam qual notícia deve sair ou estar na cada…).
Fala Planta !
Parabéns pelo blog, ótimo conteúdo. Agora que consegui colocar uma internet rápida aqui em casa percebo como é diferente o jornalismo on-line e o impresso.
Concordo com você a respeito das “mudanças profundas” que se aproximam para o jornalismo impresso, mas não acredito no fim definitivo, apesar de muitos sinais indicarem o contrário. Li em algum lugar um artigo falando sobre o pessimismo de grandes jornais como o New York Times, que não conseguiam imaginar formas de lucratividade na internet diante da necessidade que se aproxima de migrar seus conteúdos para a rede.
Não sei se você sabe, mas a revista SET foi cancelada recentemente. A única publicação impressa de cinema com mais de vinte anos em banca saiu de circulação. Ao meu ver leitores que buscam uma informação especializada estão cada vez mais aderindo a internet e deixando para trás as revistas impressas, que já tinham um público bastante restrito.
Se analizarmos a fundo eu, você e todos os jornalistas que produzem conteúdo e disponibilizam de forma gratuita na internet através de blogs e sites estamos contribuindo para o fim definitivo do jornalismo tradicional.
Antes nada era “de graça”. Tudo girava a roda da produção impressa; desde as gráficas que imprimem até os jornaleiros que vendem estão sentindo o impacto da informação gratuita da web. Certamente veremos em breve os rumos disso tudo.
Abraços e saudade das nossas cervejas filosóficas…rs
Armando
Plantinha, escrevi um texto no meu Blog sobre o programa Debate MTV, que teve como tema nessa semana ” A mídia impressa vai acabar?”. Por isso, vou disponiblizar lá o link do seu texto e talvez produza algo intermediando os dois conteúdos. Essa idéia foi do Armando e eu achei bem bacana!! Sinta-se a vontade para invadir meu blog tb…hehehehe… bjus
[...] artigo “Jornalismo e internet podem conviver juntos“, eu disse que com a internet a sociedade cria possibilidades de vigiar a imprensa e [...]