Você já deve ter reparado que existe um descompasso – imenso – entre o que pensa a população e o que os parlamentares fazem na Câmara ou no Senado. Nunca esse descompasso foi tão grande e tão visível quanto o que acontece agora, quando o tema é Amazônia.
Trago dois exemplo, que acho que bastam. No dia 13 de maio, uma quarta-feira, os atores Victor Fasano e Christiane Torlone apresentaram, no Senado, um abaixo-assinado que reuniu 1,2 milhão de assinaturas de brasileiros que repudiam a destruição da floresta amazônica e qualquer flexibilização da legislação ambiental. No mesmo momento, votava-se na Câmara um projeto apelidado pelo Greenpeace de “Plano da Aceleração da Grilagem”, a Medida Provisória 458 – que foi aprovada e agora e espera sanção do presidente (que deve dar o ok final ainda esta semana).
(Escrevi uma matéria sobre isso na época)
No dia 28 de maio tivemos mais um exemplo, que parece piada, mas não é. Criou-se a CPI da Amazônia. “Para quê?”, a gente se pergunta. Segundo eles, para “investigar o conflito referente à demarcação da reserva indígena Raposa Serra do Sol; os problemas envolvendo a soberania nacional nas áreas de fronteira, como tráfico internacional, terrorismo, guerrilhas e vigilância; o recrudescimento da aquisição de terras por parte de estrangeiros e o desmatamento da floresta”. Tudo isso em 180 dias. Ou seja, para nada.
Percorrer a lista de nomes dos titulares dessa CPI nos traz algumas surpresas. Vejamos. Jayme Campos (DEM-MT) tem áreas embargadas pelo Ibama por desmatamento ilegal e foi acusado de manter 15 trabalhadores em situação degradante em suas fazendas; Flexa Ribeiro (PSDB-PA) é autor do projeto que reduz para 50% a Reserva Legal na Amazônia; Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR) pediu a suspensão da criação de uma unidade de conservação e da Terra Indígena Raposa Serra do Sol; na fazenda de João Ribeiro (PR-TO), foram encontrados 38 trabalhadores em condição análoga a escravidão… e por aí vai.
Amigos e inimigos
Outro político que parece que encampou de vez o discurso anti-ambiental é o deputado Aldo Rebelo, que diz que “o setor ambientalista não passa de massa de manobra para interesses estrangeiros em barrar o progresso brasileiro”. Claro.
No dia do meio ambiente (5 de junho), ONGs e movimentos sociais divulgaram o “Prêmio Amigos e Inimigos da Amazônia”, apontando os parlamentares que defendem mesmo a Amazônia e aqueles que promovem medidas contra a floresta. (A lista pode ser acessada aqui). Vale lembrar que uma pesquisa recente do Instituto Datafolha mostrou que mais de 90% da população pretende votar em políticos que defendam desmatamento zero (ou menos desmatamento) e legislação ambiental mais forte. Vamos ver: 2010 está aí.